agosto 23, 2011




somos todos poetas e tradutores; poetas no nosso devir, tradutores do devir dos outros; podemos falar a mesma língua, podemos querer dizer o mesmo, mas o modo de dizer nunca é igual; há tantos modos de dizer quantas pessoas habitaram e habitam a terra; instintivamente, aproximamo-nos de quem melhor traduzimos e de quem melhor nos traduz; tradução simultânea; há traduções à superfície, que entendem de primeiras camadas e traduções de segunda, terceira... até às entranhas da terra; traduções irrequietas, que nunca estão satisfeitas com o que encontram; que perscrutam mais longe, como mineiro à procura de pedras, preciosas ou não; por cada pedra encontrada e identificada uma expressão de jubilo na sua face e uma expressão de dor na nossa; decifrado um mapa, tememos o que o salteador irá fazer com o achado; vendê-lo, devolvê-lo intacto, ou simplesmente contemplá-lo, como quem se contempla; buscamos no outro o que buscamos em nós; deixamo-nos buscar para nos encontrarmos; face a face; confiamos ao outro tarefa nossa e, em troca, oferecemo-nos mineiros na sua mina...

(escrito no rescaldo da leitura de “O Químico e o Alquimista”, Benjamin, Leitor de Baudelaire, Maria Filomena Molder)






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