primeira hora da manhã

abril 23, 2017












Ele é o coração que bate a acompanhar o sopro 
o coração que vigia
que guarda as nossas costas 













"Dá-me (em) cada dia uma pequena linha de poesia, meu Deus,
e se eu estiver impedida de a anotar, por falta de papel ou de luz,
murmurá-la-ei, à noite, ao teu vasto céu." 

Etty Hillesum, Diário 1941-1943







abril 20, 2017










É importante tratar do nosso jardim exterior, 
mas mais importante ainda é tratar do jardim interior: 
colher as ervas daninhas, plantar, regar e 
alimentar sementes de vida nova. 
Quando o jardim interior florir, 
velaremos por tudo e por todos 
com ternura e atenção.













Viver um amor ilimitado num corpo e numa mente limitados é o grande desafio de cada dia. Não guardar a palavra amor para mais tarde, mesmo que ela nos faça rebentar pelas costuras. E confiar que por detrás de todas as palavras e de todos os gestos que aparentam negar o amor, ele está lá, escondido, mas sempre presente e podendo ser descoberto quando tivermos encontrado a chave capaz de traduzir todas as línguas do mundo.



















Cada via é singular na terminologia que usa, nos ritos, na forma como "disciplina" o corpo-mente para poder escutar o Espírito (a sabedoria perene que nos habita). O importante é encontrarmos a "nossa" via, o caminho que mais ressoa connosco e seguir os seus trilhos até ao fim. As vias são singulares, mas o que experienciamos é universal.













E eu vi o rio que cada alma 
tem de atravessar para alcançar o reino dos céus
E o nome desse rio era sofrimento
E eu vi o barco que transporta as almas através do rio
E o nome desse barco era amor


São João da Cruz





março 05, 2017







Fiz uma frase a partir das seguintes palavras: procura, estrada, consciência, deserto, adoração, nome, coração e fracasso:

- No fracasso da procura na estrada deserta, 
a consciência do coração adora o) sem nome.


Agora é a tua vez:







fevereiro 28, 2017








(Cloud Gate Dance Theater)


“A iluminação é a cooperação absoluta com o inevitável”. Quando tudo em nós coopera com o inevitável fluxo da vida. Deixamos de perguntar se este é o caminho certo ou o errado, mas passamos a receber tudo o que surge como sendo o melhor para nós em cada momento. Rendemo-nos. Passamos a dizer sim à vida e sim à morte, sim à saúde e sim à doença, sim à acção e sim à contemplação. Consoante o que se apresentar em cada momento. Deixamos de nos perguntar sobre o que devemos ou não devemos fazer. Confiamos e entregamo-nos a esse fluxo, sem o travão dos nossos medos. Eles estão cá, mas deixam de funcionar como barreiras. E começamos a ver que esse fluxo é maravilhoso, curativo e vibrante como numa dança em que o nosso corpo se enlaça noutros corpos até que já não somos nós que dançamos, mas a dança que dança através de nós. Só quando essa rendição acontece é que podemos falar de liberdade e de verdadeiro amor. O amor verdadeiro é a qualidade da rendição absoluta ao inevitável. Apaixonamo-nos pelo momento presente e por tudo e todos que o habitam. Estamos, finalmente, face a face, sem desviarmos o olhar.


(Este texto é inspirado nos testemunhos de Anthony de Mello, Adyashanti e Jeff Foster)

--> -->

fevereiro 22, 2017









(imagem do filme Baran, de Majid Majidi)



Dependendo da qualidade da nossa presença na sua presença, podemos "ver" no "outro" o inferno ou o céu, ou quem ele realmente é. Se em cada instante nos lembrarmos que o "outro" não é "outro", mas todos somos Um no Pai. Se conseguirmos olhá-lo para além da máscara que ele carrega, para além do seu ego, mais ou menos problemático, mais ou menos infernal. Se conseguirmos olhar sem o nosso ego, mais ou menos problemático, mais ou menos infernal, a interferir na visão. Então haverá sempre ligação e conseguiremos amar, em qualquer situação, seja quem for, mesmo o ser humano mais desajeitadamente humano, até cruel.










fevereiro 17, 2017









      .                  *               .      
    .        .                   .               
                    Es             *          
      *      *     tre                        
                     la           .             
      .    .          ca                       
                  den                         
      .                te              *       
                             .                   
           *               .            .       
                         .                       





















  Disse    o Teu nome  
    em       VOZ ALTA  
E      recolhi-o          
   L E T R A  A  L E T R A
      Na algibeira do coração
Onde           se misturou    
     e nunca mais o             
                      reconheci
   Deixaste de ser o amado 
     Para ser         
             Amor   
                 
            
       
    
  

























  
     
         
                 
                            
                                         
                                                   
                                                              
                                                                         
                                                                    
                                                     A casa 
                  do peregrino
      é o Caminho Ele habita-o     
  Saiu de casa para entrar em Casa  
  Mudou-se sem armas nem bagagens    
    Todos com quem se cruza são família
             Mesmo que não o saibam     
                           Ele           
                             ama-         
                                   os         













janeiro 28, 2017





(para as cartas de marear, que não desistiram de esperar)







Houve um tempo em que as minhas mãos multiplicavam-se para agarrar todas as palavras do mundo e mil dedos freneticamente percorriam livros e traziam-mas à boca, que as engolia, sôfrega, quase sem mastigar. Depois de percorrerem o infindável tubo digestivo, eram aconchegadas nas múltiplas dobras, estantes dos intestinos. A minha imaginação agrupava-as, casando-as umas com as outras, formando famílias, tribos, comunidades, que me ocupavam o pensamento e não deixavam espaço para a vida que em cada instante floria e eu perdia. Até que comecei a minha cura de desintoxicação, e uma a uma foi obrigada a sair pelos orifícios da pele, em estado gasoso, líquido ou sólido, consoante o grau de teimosia. E senti, no ventre vazio, o silêncio do mundo. A imaginação deixara de funcionar por falta de combustível. Libertara-me da(s) história(s). Era finalmente livre e finalmente via, ouvia e tocava no que existia, sem necessidade de outra companhia.



StatCounter